
A escrita reflexiva como parte do acompanhamento nutricional
Quando pensamos em acompanhamento nutricional, é comum imaginar registros do que foi consumido, horários das refeições, quantidades ou sintomas. Essas informações podem ser importantes, mas nem tudo o que precisamos compreender sobre a alimentação está no prato.
Nossa maneira de comer também é atravessada pela história que construímos com a comida e com o próprio corpo. Pelas mensagens que ouvimos ao longo da vida, pelas dietas que fizemos, pelas experiências de crítica ou comparação, pelas regras que aprendemos, pelas emoções e até pelas expectativas que depositamos em uma possível mudança do corpo.
E nem sempre conseguimos acessar tudo isso durante uma consulta.
Por isso, uma das ferramentas que gosto de utilizar no acompanhamento é a escrita reflexiva.
Escrever para compreender, não para controlar
A proposta é diferente de anotar tudo o que comeu para prestar contas na próxima consulta.
Não quero que a escrita se transforme em mais uma forma de vigilância ou cobrança.
Em alguns momentos, podemos utilizar registros para observar a alimentação. Em outros, porém, proponho perguntas e temas para que você possa escrever livremente sobre sua relação com a comida, com o corpo e com o cuidado de si.
Podemos explorar questões como:
Que histórias marcaram minha relação com o meu corpo?
Quando comecei a acreditar que precisava emagrecer ou ter um corpo diferente?
Que comentários sobre meu corpo ainda carrego comigo?
Quais alimentos aprendi a enxergar como “bons”, “ruins”, “permitidos” ou “proibidos”?
O que acontece comigo quando sinto que comi mais do que deveria?
O que costumo buscar na comida além de responder à fome?
Como eu me trato quando não consigo comer da maneira que gostaria?
O que acredito que mudaria na minha vida se meu corpo fosse diferente?
O que estou deixando para viver somente quando meu corpo mudar?
Essas perguntas não têm uma resposta certa. Também não precisam ser respondidas todas de uma vez.
A intenção é abrir espaço para perceber coisas que, na correria da vida, podem permanecer no automático.
Durante uma consulta, conversamos, fazemos perguntas e construímos caminhos juntas. Mas existe um intervalo importante entre um encontro e outro.
É justamente nesse período que a vida acontece.
Você vai ao trabalho, encontra pessoas, olha-se no espelho, escolhe o que comer, sente fome, fica cansada, enfrenta dias difíceis, participa de encontros, recebe comentários, sente prazer, frustração, culpa ou satisfação.
Por isso, gosto de propor alguns exercícios de escrita para serem feitos entre as consultas.
Não como tarefa para cumprir ou entregar, mas como um convite para continuar se observando.
Às vezes, quando sentamos para escrever sem a necessidade de responder imediatamente a alguém, conseguimos permanecer um pouco mais em uma pergunta. Uma lembrança pode surgir. Um pensamento que parecia verdade absoluta pode começar a ser questionado. Podemos perceber que repetimos conosco frases que ouvimos durante muitos anos ou identificar padrões que antes pareciam acontecimentos isolados.
A escrita pode nos ajudar a enxergar padrões:
- Talvez você perceba que determinados episódios de comer acontecem depois de muitas horas sem se alimentar.
- Em outros momentos, pode descobrir que a vontade de comer aparece junto com o cansaço, a ansiedade, a solidão ou a necessidade de ter alguns minutos de prazer e descanso.
- Pode perceber que não foi necessariamente a quantidade que comeu que provocou sofrimento, mas o pensamento de que aquele alimento era “proibido”.
- Ou descobrir que uma parte importante da sua insatisfação corporal está ligada à expectativa de que um corpo diferente finalmente permita sentir-se aceita, confiante ou livre para viver determinadas experiências.
Perceber essas relações não significa que teremos uma explicação única para tudo o que fazemos.
Significa apenas que começamos a olhar para nossa experiência com mais atenção e curiosidade.
E isso pode trazer informações importantes para o acompanhamento.
O que você escreve pode voltar para a consulta
Você não precisa chegar a uma conclusão sozinha.
Quando desejar, podemos retomar alguns desses registros durante as consultas. Uma frase, uma dúvida ou uma percepção que surgiu enquanto você escrevia pode se transformar em um ponto importante da nossa conversa.
A escrita, portanto, não substitui a consulta e nem precisa trazer respostas prontas. Ela amplia o espaço de reflexão entre um encontro e outro.
